Brevvi Ricardo Amaral

Silverbullet Research

Segunda versão

Mapa da Cibercultura

Antes do mapa

Venho reescrevendo este mapa desde o Orkut. As primeiras versões se perderam com a plataforma que as guardava, e não tenho como recuperá-las: ficaram a lembrança de tê-las escrito e o hábito de voltar a elas. É um trabalho de vinte anos do qual sobrou o meio do caminho.

A versão de 2022, que é a que recuperei na íntegra, tem dez nomes, do fim dos anos 1970 ao começo dos 1990. Era uma lista, sem categorias declaradas, e tinha uma divisão que eu não havia nomeado: quatro artistas e cinco tecnólogos, lado a lado, como se a diferença entre imaginar e construir não precisasse ser dita.

Esta segunda versão nomeia a divisão e acrescenta um terceiro eixo, porque a cibercultura de hoje não se explica só por quem a fez e por quem a sonhou. Desde os anos 1990 existe uma figura que lê o sistema em vez de construí-lo: teoria, crítica, medição, denúncia. Sem esse eixo, o mapa termina em 2017 sem conseguir dizer o que aconteceu depois.

O recorte em quatro eras é editorial e defensável. A era das plataformas abre com o iPhone, não com a fundação das redes sociais, porque foi o bolso que mudou a escala. E a era da máquina que fala abre com o artigo do transformer, em 2017, e não com o ChatGPT, em 2022: datar pelo produto é datar pela chegada ao mercado, e este mapa data pela ideia. É o mesmo critério que situa Engelbart pelo oN-Line System, e não pela venda do mouse.

Um mapa não é um cânone. É um recorte assumido, com um autor, uma data e um critério visível. Os três estão declarados aqui para que se possa discordar deles com precisão.

Os três eixos

  1. I

    Quem construiu

    Hardware, software, protocolo, infraestrutura.

  2. II

    Quem imaginou

    Arte, literatura, cinema, música, jogo.

  3. III

    Quem leu

    Teoria, crítica, medição, denúncia.

As quatro eras

Os verbetes da era 1 são os da versão de 2022, aqui em português. Dentro de cada era, a ordem é a dos três eixos.

Origens

fim dos anos 1970

O recorte da primeira versão, preservado. A cibercultura antes de ter público.

I Quem construiu

Hans Moravec

Futurista e professor de robótica na Carnegie Mellon University, é autor de uma série de trabalhos sobre inteligência artificial, visão computacional, transumanismo e robótica, e dedica a carreira a analisar o impacto dessas tecnologias na sociedade. É também cofundador da Seegrid Corporation, que desenvolve robôs autônomos projetados para interagir com ambientes sociais sem intervenção humana, e integra o movimento Extropy, um conselho de cientistas e pensadores que acredita ser possível transportar a consciência para um computador, descartando o corpo humano substituível e evoluindo a espécie para uma forma nova de vida.

Vannevar Bush

Cientista americano que chefiou o departamento de pesquisa do governo, com patentes que incluem o desenvolvimento do radar. Durante a Segunda Guerra participou do Projeto Manhattan, e um dos projetos foi a bomba atômica. No período integrou o departamento de engenharia do MIT, de 1919 a 1932. Sua contribuição principal à cibercultura veio em 1945, ao apresentar conceitos sobre o futuro do hipertexto no lendário artigo "As we may think". Ali a ideia central girava em torno dos elos de associação, tal como a mente humana opera. É o inventor do Memex, máquina anterior ao computador, e do conceito de elo associativo.

Douglas Engelbart

Conduziu, nos anos 1960, pesquisas para aumentar o intelecto humano. Em seu trabalho cita as contribuições fundamentais de Vannevar Bush, e dirige o esforço a aperfeiçoar o Memex com a tecnologia computacional da época. A partir disso criou um sistema de hipermídia colaborativa, o NLS (oN-Line System), projeto conduzido com a mesma equipe de pesquisadores que desenvolveu o hipertexto, e que contou com a presença de Bill English, com quem desenvolveu outro dispositivo até hoje considerado um dos principais componentes da relação entre humano e máquina: o mouse.

Ted Nelson

Durante os estudos em Harvard iniciou o Projeto Xanadu. O conceito principal era facilitar a escrita não sequencial, oferecendo ao leitor um modo não linear de ler, e na época o projeto se chamava "Zippered lists". Com o advento das redes de computadores, ganhou versão nova usando o conceito de rede e a distribuição de cópias virtuais, e foi rebatizado como "Docuverse", em referência a um universo de documentos. No início dos anos 1980, Nelson e sua equipe faliram, o que o levou a procurar investidores. Em 1983 encontrou John Walker, fundador da Autodesk, e com apoio financeiro retomaram o Xanadu, desenvolvido inicialmente em C e depois reescrito em Smalltalk. Em 1992 a Autodesk desistiu do projeto, e Charles Smith, fundador da Memex, contratou os programadores e licenciou a tecnologia. Dizem que Tim Berners-Lee se inspirou nesse conceito para desenvolver a World Wide Web.

Bill Atkinson

Criador do HyperCard, sistema de hipertexto com interface gráfica lançado em 1987 para rodar no MacOS. O HyperCard, uma espécie de precursor do extinto Adobe Flash, foi feito para criar aplicações interativas chamadas "stacks", num ambiente de desenvolvimento simples o bastante para o usuário comum do Macintosh, em boa parte artistas gráficos. É creditado como o sistema que popularizou o hipertexto.

II Quem imaginou

Elliot Sharp

Caminhos de estilo eletrônico que influenciaram gerações de músicos e performers em busca da fusão entre sons. Mistura componentes eletrônicos com o ruído de maquinário industrial em sua arte, e a executa no palco junto de projeção mapeada.

William Gibson

Considerado o precursor do estilo literário conhecido como cyberpunk. Criou diversos conceitos ligados ao universo da cibercultura. Seus anti-heróis aparecem quase sempre entre os trabalhadores da indústria cibernética que ainda estava por emergir em nossa sociedade. Misturando política, tecnologia, cultura pop e ética, seus romances representam a contracultura e são povoados por elementos de jogos, filmes de horror, punk rock e quadrinhos. Gibson criou uma classe nova de literatura, que inspira tanto o cinema quanto a indústria digital.

H.R. Giger

Bizarro, o artista suíço flerta com o ciborgue e com as bioformas alienígenas, criando figuras biomecânicas de aparência humanoide. Suas pinturas sombrias são habitadas por seres híbridos de máquina e carne, apoiados em cenários onde o metal faz o ambiente parecer vivo, respirando e deixando o líquido viscoso escorrer pelas paredes. Considerado controverso pelo mainstream e genial pelos amantes da cibercultura e da ficção científica, é um ícone do cinema. Seu trabalho aparece em capas de disco, filmes, jogos, tatuagens, e é referência para quem pratica modificação corporal.

Mark Pauline

Precursor das batalhas de robôs, e numa versão extrema e apocalíptica delas. É um dos mentores do SRL (Survival Research Laboratories), organização artística informal formada por engenheiros que organizam, pelo mundo, performances de exibições aterrorizantes em arenas de batalha, com som estridente, onde robôs colossais lutam entre si dirigidos por seus operadores. Suas batalhas eram maratonas sombrias de até 48 horas, levando homem e máquina ao limite, questão essencial da cibercultura.

Mike Saenz

Nos anos 1980 usou o recém-lançado Macintosh para criar as ilustrações dos quadrinhos "Shatter", feitos em parceria com o roteirista da Marvel Peter B. Gillis, criador do Doutor Estranho, numa história ambientada no universo de Blade Runner. No início dos anos 1990 lançou a editora de jogos Reactor, com títulos como Spaceship Warlock e Interactive Virtual Valerie, um dos primeiros a explorar o sexo virtual. É considerado um dos principais defensores do cibersexo.

A rede pública

1993 · Mosaic

A web sai da academia e vira endereço que qualquer um digita. É a era em que a cibercultura deixa de ser assunto de quem constrói e passa a ter público, e em que aparece pela primeira vez quem a lê de fora.

I Quem construiu

Tim Berners-Lee

Propôs em 1989, no CERN, um sistema de documentos ligados por hipertexto sobre a internet que já existia, e escreveu o primeiro servidor e o primeiro navegador. A decisão que mais importa não foi técnica: em 1993 o CERN liberou a tecnologia em domínio público, sem royalties. A web é o único meio de comunicação de massa que nasceu sem dono, e essa escolha explica boa parte do que veio depois, inclusive o que a contradisse.

Richard Stallman

Fundou em 1983 o projeto GNU e, em 1989, escreveu a Licença Pública Geral, que inverte o direito autoral para obrigar quem distribui a manter o código aberto. Chamou o mecanismo de copyleft. É a formulação jurídica da ideia de que software é conhecimento, e não mercadoria, e continua sendo a peça de infraestrutura ideológica sobre a qual a rede pública se apoiou.

Linus Torvalds

Em 1991, ainda estudante em Helsinque, publicou o núcleo de um sistema operacional numa lista de discussão dizendo que era apenas um passatempo, nada grande e profissional. O Linux se tornou a base da maior parte dos servidores que sustentam a web, dos celulares Android e da infraestrutura de nuvem. É a prova prática de que a produção distribuída entre desconhecidos funciona em escala industrial.

Ward Cunningham

Criou em 1995 o primeiro wiki, o WikiWikiWeb, com uma decisão de desenho que parecia ingênua: qualquer pessoa pode editar qualquer página, sem pedir permissão. A aposta era que a correção coletiva superaria o vandalismo. A Wikipédia é o desdobramento mais visível dessa aposta, e a discussão sobre autoridade e autoria que ela abriu ainda não terminou.

II Quem imaginou

Neal Stephenson

Em Snow Crash, de 1992, nomeou o metaverso e o avatar, e descreveu um espaço tridimensional persistente habitado por representações de pessoas. O livro é sátira, não profecia, e é útil lembrar disso: o mundo que ele descreve é uma distopia corporativa. A indústria adotou o vocabulário e descartou a crítica, o que por si só é um dado sobre como a ficção circula na cibercultura.

Olia Lialina

Uma das primeiras artistas a tratar o navegador como meio, e não como vitrine. My Boyfriend Came Back From the War, de 1996, usa frames HTML como gramática narrativa: cada clique divide a tela, e a fragmentação é a história. Também é historiadora da web amadora, e documenta a estética das páginas pessoais dos anos 1990 como patrimônio, não como constrangimento.

Lana e Lilly Wachowski

Matrix, de 1999, deu imagem popular a um conjunto de ideias que circulavam havia décadas em textos que quase ninguém lia: simulação, corpo descartável, realidade mediada por máquina. O filme fez pela difusão da cibercultura o que nenhum ensaio fez, e ao mesmo tempo achatou parte do que difundiu. As duas coisas são verdadeiras, e é por isso que ele pertence ao eixo de quem imaginou.

III Quem leu

Pierre Lévy

Formulou a inteligência coletiva como a ideia de que ninguém sabe tudo, todos sabem alguma coisa, e o saber está distribuído: o problema não é acumular conhecimento num centro, e sim coordenar o que já está espalhado. Em Cibercultura, de 1997, propôs ler o virtual não como oposto do real, e sim como um modo de existência. É a base conceitual sobre a qual boa parte do campo, inclusive no Brasil, passou a escrever.

André Lemos

Na UFBA, construiu o vocabulário brasileiro da cibercultura e o tirou do registro da novidade tecnológica para o da teoria. Trabalhou a mobilidade e a comunicação em rede como território, não como acessório, e depois as cidades como espaço informacional. É a referência que faz existir um campo de cibercultura em língua portuguesa, com produção própria e não apenas tradução.

Lúcia Santaella

Trouxe a semiótica de Peirce para a leitura das mídias digitais, o que dá ao campo um instrumento em vez de uma metáfora: signo, objeto e interpretante permitem descrever o que uma interface faz com quem a usa. Formulou também a noção de leitor imersivo, aquele que navega em vez de percorrer uma linha. É a tradição em que se inscreve qualquer tentativa de tratar a leitura por máquina como leitura de signos.

Manuel Castells

Na trilogia A Era da Informação, publicada entre 1996 e 1998, descreveu a sociedade em rede como forma de organização, e não como efeito da tecnologia. A distinção entre espaço de lugares e espaço de fluxos deu nome a algo que se sentia e não se conseguia nomear: o poder deslocou-se para quem controla a conexão, não para quem ocupa o território.

As plataformas

2007 · iPhone

A rede vira bolso, e vira vigilância. O acesso deixa de ser um lugar aonde se vai e passa a ser uma condição permanente, e o que era rede aberta se organiza dentro de poucas empresas.

I Quem construiu

Satoshi Nakamoto

Publicou em 2008 um artigo de nove páginas propondo um sistema de dinheiro eletrônico sem intermediário de confiança, e em 2009 o software que o implementava. Depois desapareceu, sem jamais ter sido identificado. Independentemente do que se pense do desdobramento financeiro, a contribuição para a cibercultura é conceitual: mostrou que é possível produzir consenso sobre um registro compartilhado sem autoridade central, e o anonimato do autor é parte do argumento.

Vitalik Buterin

Propôs em 2013, aos dezenove anos, generalizar a ideia da blockchain para além do dinheiro: se um registro distribuído pode guardar saldos, pode guardar programas. O Ethereum transformou a cadeia num ambiente de execução, o que abriu tanto a possibilidade de contratos autoexecutáveis quanto a de inscrever texto, imagem e obra com data verificável fora de qualquer plataforma editorial.

Casey Reas e Ben Fry

Criaram em 2001, no MIT Media Lab, o Processing, uma linguagem e um ambiente feitos para que artistas escrevessem código sem passar pela engenharia de software. A decisão de desenho é a mesma do HyperCard e do wiki: baixar a barreira em vez de simplificar o resultado. Uma geração inteira de arte generativa e de visualização de dados existe porque essa ferramenta existia.

II Quem imaginou

Charlie Brooker

Black Mirror, a partir de 2011, fez com a era das plataformas o que a ficção cyberpunk fez com a anterior: encontrou a imagem antes de o fenômeno ter nome. A série trabalha por extrapolação curta, tomando algo que já existe e avançando um passo, e é dessa proximidade que vem o desconforto. Quando um episódio envelhece mal, é porque a realidade o alcançou.

Hito Steyerl

Em defesa da imagem pobre, de 2009, tratou a imagem comprimida, pirateada e degradada pela circulação não como falha, e sim como a forma que a imagem assume quando circula de fato. É uma inversão de valor com consequência política: a qualidade técnica pertence a quem controla a distribuição, e a degradação é a marca de quem circula à revelia dela.

Trevor Paglen

Fotografa o que a infraestrutura da vigilância tem de físico: satélites de reconhecimento, cabos submarinos, prédios sem identificação. Depois passou a trabalhar as imagens que só máquinas veem, aquelas produzidas por sistemas de visão computacional para outros sistemas. O trabalho torna visível a tese de que existe uma camada de imagens sem espectador humano, e que ela decide coisas.

III Quem leu

Shoshana Zuboff

Nomeou o capitalismo de vigilância como um modelo econômico específico, e não como abuso ocasional: a matéria-prima é o excedente comportamental, o dado que sobra da interação e que não serve para melhorar o serviço, e o produto vendido é a previsão sobre o que a pessoa fará. A contribuição está em ter transformado uma sensação difusa de estar sendo observado em descrição de mecanismo.

danah boyd

Estudou adolescentes usando redes sociais com método etnográfico, e desmontou o pânico moral com evidência: os jovens não eram nativos digitais dotados de competência automática, nem vítimas passivas de plataformas. Formulou a ideia de públicos em rede, e a de colapso de contexto, que descreve o que acontece quando o que se diz para um grupo chega a todos os outros ao mesmo tempo.

Aaron Swartz

Participou da especificação do RSS aos catorze anos e do desenvolvimento do Creative Commons, mas o texto que o situa neste eixo é o Manifesto da Guerrilha do Acesso Aberto, de 2008: o conhecimento produzido com dinheiro público e trancado atrás de assinatura é uma expropriação, e compartilhá-lo é obrigação moral. Foi processado por baixar artigos acadêmicos e tirou a própria vida em 2013, aos vinte e seis anos.

Sérgio Amadeu da Silveira

Formulou no Brasil a leitura política do software livre e da exclusão digital, e depois a da algoritmização da vida: a decisão automatizada como forma de poder que não se apresenta como poder, porque se apresenta como cálculo. É a voz que liga a tradição brasileira de cibercultura ao debate sobre governo algorítmico, e que insiste que a discussão é de soberania, não de eficiência.

A máquina que fala

2017 · Attention Is All You Need

O transformer é a dobradiça, não o produto que o tornou visível.

I Quem construiu

Ashish Vaswani e os co-autores do transformer

Em 2017, oito pesquisadores publicaram "Attention Is All You Need", um artigo de doze páginas que propunha descartar a recorrência e a convolução e apoiar o processamento de linguagem inteiramente sobre um mecanismo de atenção. A arquitetura recebeu o nome de transformer. Nada no artigo anunciava o que viria: era um trabalho sobre tradução automática, com ganhos de eficiência em treinamento. É a dobradiça desta era porque tudo que veio depois, dos modelos de linguagem aos geradores de imagem, é variação sobre aquele desenho.

Geoffrey Hinton

Passou décadas sustentando redes neurais num período em que o campo as considerava um beco sem saída, e a retropropagação que ajudou a popularizar é a base do treinamento de praticamente todo modelo em uso. Em 2023 deixou o Google declarando que queria falar livremente sobre os riscos daquilo que ajudara a construir. É o caso mais nítido de alguém que atravessa os eixos deste mapa: construiu, e depois passou a ler o que havia construído.

III Quem leu

Timnit Gebru e Emily Bender

Em 2021 assinaram, com Angelina McMillan-Major e Margaret Mitchell, "On the Dangers of Stochastic Parrots", que perguntava se modelos de linguagem cada vez maiores compreendem alguma coisa ou apenas recombinam padrões do que leram, e a que custo ambiental e social. O artigo custou a Gebru o emprego no Google. A expressão "papagaio estocástico" entrou no vocabulário do campo, e é hoje o argumento mais citado contra a leitura de que escala produz entendimento.

Kate Crawford

Em "Atlas of AI" desmonta a ideia de que inteligência artificial seja imaterial, seguindo a cadeia física que a sustenta: a mineração de lítio, o consumo de energia, o trabalho humano mal pago de rotulagem, a extração de dados sem consentimento. É leitura no sentido estrito deste mapa, porque não descreve o sistema por dentro nem o denuncia de fora: mostra do que ele é feito.

Versões

O que sobrevive, e onde. As versões anteriores ao Medium se perderam.